Foi incrível. O apartamento era feito de livros e o próprio Dom Quixote apresentava os diversos ambientes. Quase um milagre. Benito varria o vaso quebrado ao canto da salinha de entrada. Balançava a pequena vassourinha brutalmente contra o chão e dava um charme grotesco aos livros de couro antigos e cheirosos. Vastas coleções enfeitavam as prateleiras de madeira escura, dificilmente visitadas. O anfitrião sabia como dançar entre as obras, dois passos à esquerda chicoteava as leis da atração, à frente bailava com os romancezinhos, à direita armavasse com os autógrafos japoneses e a cada pulo, topava com o nariz do Sr. Feynman duelando com o nariz do Gogol. Era um piscar de olhos, estava em uma selva ouvindo seus susurrinhos, era outro, estava em um ópera gravemente chique e pomposa. Céus! Cem vezes algodão doce, cem vezes cookie de chocolate. Meu êxtase, minha terça-feira.
Um passeio entre florestas do esquecimento, entre eventos e alguns acontecidos. Um traço de tempo, um hiato de uma vida inteira numa biblioteca. E ainda mais no porvir.
*acho que foi um chinês que autografou, mas não dá pra saber por aqueles rabiscos ideográficos.