O mundo fantástico de um homem ridículo

Um aperitivo do que foi a metade de dois mil e onze, entendendo-se ou não.

Esta história vai além do relato da vida de um homem, do seu cotidiano e de sua dimensão filosófica. Trabalham-se aqui as crises interiores, relacionadas com a perda da fé em Deus e o sentido que se da à vida humana.

O relato é predominantemente dado pela voz do narrador em primeira pessoa, que narra o momento crucial que a vida deste indivíduo entra em colapso. Tende a aprofundar o conhecimento das razões e a essência da situação precária e desesperada em que se encontra o homem contemporâneo. A ação deste relato dá-se em três dimensões temporais: momento presente da narração, a realidade do passado e a realidade do sono. Dostoiévski trabalha com o herói ideológico, o qual possui suas próprias convicções; introduz a moralidade da sociedade neste anti-herói, a salvação está na perdida na escuridão de um mundo irreal. Quando o homem ridículo encontra-se pervertendo os demais habitantes daquela estranha sociedade e descobre que somente ele é o responsável, começa novamente a deslumbrar sua antiga posição de escárnio.

Das características fundamentais do romantismo apreciadas pelos escritores russos destacavam-se a idealização do mundo, a representação da nacionalidade, o subjetivismo, o individualismo, o romance utópico, a religiosidade, salvação através do sofrimento e fuga da realidade. O romantismo atribui valores da literatura clássica, transformando-os.

As obras de F. Dostoiévski seguem pelo campo do irracional, explorando diversas experiências que seus personagens vivenciam, adaptando sua subjetividade entre o grotesco e o sublime. Dramatiza as mais profundas, dentro comportamento do ser humano, de seu subconsciente ou seja, sua visão está centrada no indivíduo e suas experimentações. Os contos fantásticos atribuem muito do romantismo, por tratarem da interioridade do indivíduo. Surgiram a partir das especulações filosóficas do início do século XIX; os conceitos de contos fantásticos dar-se-iam através da experimentação de um ser que tem apenas conhecimento das leis naturais em contrapartida de um evento aparentemente sobrenatural, entre a ilusão e a existência de outra realidade.

Mergulhar de cabeça

As coisas estão fora do nosso orçamento ou isso é um detalhe que não foi planejado.

Arrumou-se no banheiro feminino; olhou-se no espelho por um tempo, como quem quer acolher os detalhes com cuidado. Atravessou os corredores até a pequena sala abaixo das rampas que davam acesso às salas de aula e com muita paciência aguardou sua vez na fila da recepção. Trancou umas portas aqui, outras ali; psicologia quiça. Com um passo espaçado do outro iniciou a valsa até o último andar. Chegando ali, no ponto entre um coupé para a ciseaux iniciou a execução do que seria seu momento de fama, o mergulho do sabiá.

Sua mãe a encontrou em pleno pouso; pousou de cabeça no concreto. Quebrando parte do crânio, os  pequeninos dentinhos saltaram pelo jardim. São daqueles epitáfios que dizem “Seus vinte e três anos foram excepcionais. Tanto nos estudos, como fora deles. No ar.” Tentou o suicídio e relativamente falhou, por algum tempo. Foi levada ao hospital por um professor de medicina e morreu na porta do hospital.

 

Tudo que é ficção às vezes se confude com a vida real; quando a moça do samu vem recolher alguns dentes pelo chão, você começa a pensar se a fada do dente não existe mesmo.

 

Algo a mais

Foi incrível. O apartamento era feito de livros e o próprio Dom Quixote apresentava os diversos ambientes. Quase um milagre. Benito varria o vaso quebrado ao canto da salinha de entrada. Balançava a pequena vassourinha brutalmente contra o chão e dava um charme grotesco aos livros de couro antigos e cheirosos. Vastas coleções enfeitavam as prateleiras de madeira escura, dificilmente visitadas. O anfitrião sabia como dançar entre as obras, dois passos à esquerda chicoteava as leis da atração, à frente bailava com os romancezinhos, à direita armavasse com os autógrafos japoneses e a cada pulo, topava com o nariz do Sr. Feynman duelando com o nariz do Gogol. Era um piscar de olhos, estava em uma selva ouvindo seus susurrinhos, era outro, estava em um ópera gravemente chique e pomposa. Céus! Cem vezes algodão doce, cem vezes cookie de chocolate. Meu êxtase, minha terça-feira.

Excelência

Com efeito, os parâmetros usados para avaliar o que a arte exala em gente pequena torna-se cada vez mais insignificante, atingindo a paralisia da criatividade e da curiosidade.

Os profissionais preparados para auxiliar na transição entre gênero e espécie, estão colocados de frente uns aos outros, ganhando pirulitos e um saquinho de bolas de gude. Quem não sabe jogar, inventa.

Essa é a sensação depois de interpretar uma prova de conhecimentos específicos. Embora, muito atualizada e baseada em exposições que datam desde 1966 a 2009, não se espera muito dos docentes, apenas que saibam interpretar um texto e assinalar a questão correta.

Vale ressaltar que se o manto de Bispo do Rosário o levava a presença de Deus, existe uma possível chance de uma prova com alternativas me levar aos alunos.

Tratar convenientemente

Apoiou-se na sustentação de madeira velha e suja, inclinando parte de seu corpo para fora do edifício. Experimentou se equilibrar com a barriga na moldura, deixando a cabeça dependurada com as pequenas mechas de cabelo espantadas pelo rosto. Observou os prédios ao redor durante três longos minutos, geralmente imaginava como três minutos bem pensados demoram a passar. Imaginou também como é espantoso o rosto de quem se atira de um prédio. Suave, quase de felicidade; talvez a sensação de vento no rosto ou aquele arrepio de liberdade. São quase consagrados com uma auréola de sangue em volta da cabeça.

Antes de tratar convenientemente, adotou o efeito de pensar. E se não lhe bastar, há de escrever no batente da janela um pequeno trecho de uma música de Violeta Parra, para servir de lápide. Não sei se deviam colocar seus pés no chão ou mantê-los suspensos na parede.

Tocar de leve

Li sobre sonhos e tormentos, passeios sociais e licitações burocráticas. Sobre lindas mulheres feitas de rosa e de suas ações; amores.

Soube mais do que se sabe vendo a retrospectiva de final de ano. Não me obriguei a ler todas as páginas impressas erradas, tive medo de encontrar coisas maiores, dessas que não explicamos, que preferimos silenciar. Mas li, li com vontade de entender e entendi.

Acredito que a maior coisa que tenho em mim é a vontade de “entender”; meu maior medo desde que tirei zero na prova de matemática da quinta série continua o mesmo. Fico dividida entre “entender” e “aprender”.

(…)

Se quiser saber…

Anyway, I can try anything it’s the same circle, that leads to nowhere and I’m tired now. Anyway, I’ve lost my face, my dignity, my look, everything is gone and I’m tired now. But don’t be scared, I found a good job and I go to work every day on my old bicycle you loved. I am pilling up some unread books under my bed and I really think I’ll never read again.

No concentration, just a white disorder everywhere around me, you know I’m so tired now. But don’t worry I often go to dinners and parties with some old friends who care for me, take me back home and stay.

Monochrome floors, monochrome walls, only absence near me, nothing but silence around me.
Monochrome flat, monochrome life, only absence near me, nothing but silence around me.

Sometimes I search an event or something to remind, but I’ve really got nothing in mind. Sometimes I open the windows and listen people walking in the down streets. There is a life out there. But don’t be scared…

 

*Sei que ler músicas em páginas estranhas é extremamente chato, mas se quiser saber…

Dominique A.

Se se morre de hipotermia

Não se morre de amor quando a temperatura do corpo cai abaixo de 35ºC. Estar a salvo da primavera, passar longe dos cobertores do inverno, ser absorto ao andar de mãos dadas no outono e esquecermo-nos do verão, por ser uma estação delinqüente… Sempre acreditei que seria essencial “na medida do possível” a alguém; ser a primeira memória agradável em uma manhã, escolha considerável nas tardes de dias normais, presença constante nas luxuosas noites depois de um dia de estudos ou trabalho.

Tornei-me um fantasma camarada, flor da estação passada, trufa comprada, substituta delivery. Saber que as cartas, as palavras, todo o veludo, os “te amo”, sorvetes de estrada, lugares quentinhos, anotações no canto das páginas, sorrisos que pulam, desenhos animados… Não foram pra mim. Não me sobrou sonetos, versinhos, frases, palavrinhas no ouvido, esses mimos. Nem as saudades que costumam dançar pelos dias foram acusadas.

Não me sobrou quase nada… Parece que queimaram para se aquecer no inverno. E se alguém tem coragem pra ser, deve estar perdido na neve.

***

Já faz um tempo que não leio poesia, parece tão irreal hoje. Para meu aniversário, que breve entra sem bater:

“Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silêncio, enquanto o mar destrói suas constantes estátuas e derruba suas torres de enlevo e brancura, porque na trama destes tecidos invisíveis da água entornada, da incessante areia, sustentamos a única e acossada ternura.” (O Carteiro e o poeta)

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